LIVE'N'LOUDER ROCK FEST

Depois de anos de espera, eis que o Rio Grande do Sul finalmente é contemplado por um grande festival de som pesado, o Live’N’Louder Rock Fest, realizado no Gigantinho, no último dia 15 de outubro. Antes de começar a falar do evento e de seus shows, deixarei algo bem claro: conhecia pouquíssimo as bandas que se apresentaram. Pode-se até dizer que pelo menos três eu fui conhecer na hora. Dito isto, vamos ao festival.
Decidi na sexta-feira, dia 14, que iria ir ao festival, depois de muita insistência de meus amigos para acompanha-los nesta maratona musical. Não estava disposto a pagar 80 reais para ver bandas das quais conhecia pouco, mas achei que não podia perder o primeiro grande festival do RS, nem o show do Scorpions. Sem contar que precisava sair de casa. Então lá fomos nós rumo ao Gigantinho, pela segunda vez no ano. Ao chegar lá já era perceptível que o público não lotaria o ginásio. E não da pra culpar o público gaúcho, pois o grande vilão realmente era o ingresso.
O primeiro show do dia seria da Toccata Magna, banda gaúcha que mistura Heavy Metal com música andina. Não assisti ao show, preferimos fazer um lanche do lado de fora enquanto a banda tocava. Apenas escutei alguma coisa e reconheci o cover para The Evil That Men Do, do Iron Maiden. Quando finalmente entramos, o pessoal da produção estava montando o equipamento do The 69 Eyes.
Não conhecia absolutamente nada dessa banda quando eles subiram ao palco. A minha impressão foi boa. Um Gothic Metal meio Hard bem interessante. Por falar em Hard Rock, o visual da banda lembra bastante o Motley Crüe. Músicas bem legais como Devils, Gothic Girl e Brandon Lee empolgaram até mesmo quem não os conhecia. Os destaques individuais ficam por conta do vocalista Jyrki69, com seu vocal grave e performance de palco absolutamente carismática e o baterista Jussy69, que não parava de cuspir cerveja e atirar baquetas para longe. Uma ótima e agradável surpresa.
A banda escalada para fazer o show seguinte deveria ter sido uma das atrações principais. O Rage fez aquela que foi simplesmente a melhor apresentação dentre as sete bandas. Original da Alemanha, mas atualmente com um alemão, um russo e um norte-americano em sua formação, o power trio fez todos que já se encontravam no local vibrarem durante 50 minutos. Down, Don’t Fear The Winter, War Of Worlds, Firestorm, Soundchaser e Higher Than The Sky trataram de massacrar os pescoços menos preparados e mostrar toda a agressividade e qualidade da banda. É difícil destacar alguém, mas se fosse para faze-lo, o título iria para o baterista estadunidense Mike “Troll” Terrana. Com um kit de batera simples, Mike deixou no chinelo a maioria de seus companheiros de instrumento.
Os também alemães do Destruction tinham um desafio duplo: o primeiro foi substituir o Testament, uma das atrações mais esperadas, mas que acabou cancelando sua participação. O segundo desafio era tocar depois do melhor show da noite. Bem, pode-se dizer que Schmier e sua trupe conseguiram, pelo menos em parte, vencer seus obstáculos. De cara eles já mandaram a clássica Curse The Gods, para alegria dos thrashers. Muito comunicativo, Schmier não parava de se dirigir aos fãs e avisou que em 2006 a bandas estará de volta. Outros destaques foram Nailed To The Cross, Soul Collector, Inventor Of Evil e The Butcher Strikes Back, que encerrou o show.
A segunda banda brasileira da noite deixou muito a desejar. Apesar de fazer um show correto, o Shaaman abusou da paciência do público. Muito papo e pouca ação. Antes mesmo de entrar no palco a banda já deu nos nervos, com o locutor gritando que os pedidos do público não eram suficientes e que se não gritássemos mais eles não entrariam. Pois alguns vaiaram, e um outro grupo, do qual fiz parte, começou a gritar “viado, viado”. O início da apresentação até animou, com uma Turn Away bastante pesada e agressiva. Alias, fiquei surpreso com o vocal de André Matos, que estava bastante agressivo. Mas isso não é suficiente.
A todo momento André achava algo para criticar. Hora falava sobre os problemas que tiveram em seu último show em Porto Alegre, hora reclamava do descaso das produtoras de shows que só agora estavam dando destaque para uma banda brasileira em festivais. O pior foi quando ele resolveu dizer que um dia nós veríamos uma banda nacional fechando algum festival. Pode até acontecer, mas precisará ser uma banda grande e que tenha cacife para isso, como um Sepultura. Alguns vão dizer que eu tenho implicância com a banda e com seu vocalista. Pode até ser, mas não fui o único a achar o show apenas bem executado.

A atração principal era o Scorpions, mas muita gente estava ali apenas para ver o Nightwish. O que tinha de adolescentes e até crianças ali para ver a banda era algo quase surreal. Alias, o Nightwish provavelmente foi o responsável por este ter sido um dos shows de Metal com maior presença de mulheres que já vi em minha vida. E quando os finlandeses começaram o seu show o Gigantinho quase veio a baixo. Tarja Turunen arranca suspiros com sua bela voz, sua simpatia e, é claro, sua beleza. A banda é quase perfeita, parece que estamos ouvindo um CD. Bem, os fãs quase se mataram de tanta empolgação.
Os pontos altos são fáceis de apontar. Primeiro foi à execução da clássica Phanton Of The Opera, de Andrew Lloyd Weber, com Tarja dividindo os vocais com o baixista Marco Hietala (que se comunica muito com o público e é um ótimo vocalista também). Muito bem feita esta versão. Foi um momento emocionante até para quem, assim como eu, não é muito fã da banda. Wishmaster foi o outro, com o público indo ao delírio. Porém, nem tudo são flores. Falta muita coisa nos finlandeses. Tarja canta absurdamente bem, é linda e encantadora, mas definitivamente fica devendo muito no quesito “atitude metal”. Ela não é uma cantora de Heavy Metal e por mais que se esforce, não convence como tal. A banda toda é estranha. O fato de a música soar perfeitamente bem durante todo o set, por mais absurdo que pareça, é negativo. Como eu disse, parece que se está ouvindo o CD, é frio, falta espontaneidade. Tudo parece perfeito de mais, falta sujeira, agressividade. Falta Heavy Metal.
Uma pequena pausa. Acabei de ler no Whiplash que Tarja Turunen está fora do Nightwish. Agora, voltemos ao festival.
Depois do Nightwish aquele monte de adolescentes, crianças e boa parte das mulheres que estavam lá simplesmente sumiram. A explicação é bem simples: chegava a hora do show dos adultos. O Scorpions, atração principal do festival, levou 1 hora pra começar o show, mas a espera valeu. Os alemães fizeram um puta show, com uma boa mescla entre clássicos e músicas novas. Começaram com New Generation, do novo Unbreakable e seguiram com Love’em Or Leave’em, também do último álbum. Mesmo cansado, o público não parou, principalmente quando começaram os clássicos. E tome Bad Boys Running Wild e a minha preferida, The Zoo. A banda está muito bem entrosada e os membros mais novos, o baixista Pawel Macidowa e o baterista não-tão-novo-assim James Kottack parecem que estão lá desde a década de 1970. O guitarrista Rudolth Schenker e o vocalista Klaus Maine eram só simpatia. O único que destoava na banda era o guitarrista Mathias Jabs. Apesar de tocar com a habilidade que já conhecemos, ele não parecia estar nada feliz. Muito pelo contrário. Além de reclamar com os técnicos várias vezes, em dado momento chegou a sair do palco e discutir violentamente com um deles.

Mesmo com os chiliques de Jabs, o show prosseguiu quase que impecável. O minúsculo Klaus Maine é um gigante quando está com um microfone nas mãos. Incrível como sua voz ainda está poderosa e alcança todos os tons. O show seguiu com mais clássicos e músicas novas e até um set acústico, que incluiu Always Somewhere e Holiday. Outro grande momento foi à execução da instrumental Coast To Coast. Wind Of Change emocionou até os marmanjos com cara de mau. Big City Ninghts e Blackout, apesar dos problemas no som, foram ovacionadas a exaustão pelo público. O final com Still Loving You e Rock You Like A Hurricane deixou todos extasiados e com a certeza de que aqueles 80 reais foram muito bem investidos.
P.S.: Agora, uma consideração sobre o Live’N’Louder. Apesar de saber que pouquíssima gente vai ler este texto, acho que é preciso falar para a organização do festival. 80 reais pra ficar em pé durante mais de 10 horas ou sentado em concreto é, no mínimo, absurdo. Sinceramente não sei o que os caras da Opus tem na cabeça, mas com certeza não são neurônios. O preço altíssimo dos ingressos fez com que o público não passasse de 6500 pessoas. Se o ingresso fosse metade disso, teríamos pelo menos o dobro de público e com a mesma arrecadação. É só pensar e fazer as contas.










